Amizades , Capital e Leminski

7 mar

De uns dias para cá tenho refletido muito (como já o fiz outras vezes) à respeito do valor da amizade.

Acredito e penso que que não esteja solitário em minha opinião, de que cada vez mais, estamos perdendo o sentido e o valor deste bem ou patrimônio tão importante. Este bem tem se perdido em meio a um mar de vaidades e desejos, onde todos em algum momento , seja de modo inconsciente ou não, busca se utilizar desta como meio para alcançar os seus fins, seja lá quais forem.

Acredito que em algum momento todos nós de uma forma ou outra acabemos envolvidos neste panorama sombrio , porém real. É o ocaso da humanidade! Tudo é lucro , tudo é prejuízo e a amizade e outros valores (veja só valores!) , são cada vez mais, medidos de maneira objetiva , como se faz com o dinheiro ou um bem comercializável qualquer.

Em certo momento , no alto desta reflexão , um aluno veio a mim com um texto do Paulo Leminski sobre a “Ditadura da Utilidade” e que em certos aspectos traduz de modo muito mais coerente e sucinto este meu sentimento de indignação , de forma que acrescento aqui o dito cujo.

E sem mais delongas o dito texto:

( Pensei colocar só trecho em questão , mas, no ultimo momento resolvi que deveria , citá-lo por completo)

Inutensílio

A ditadura da utilidade

A burguesia criou um universo onde todo gesto tem que ser útil. Tudo tem que ter um para quê, desde que os mercadores, com a Revolução Mercantil, Francesa e Industrial, substituíram no poder aquela nobreza cultivadora de inúteis heráldicas, pompas não rentáveis e ostentosas cerimônias intransitivas. Parecia coisa de índio. Ou de negro. O pragmatismo de empresários, vendedores e compradores, mete preço em cima de tudo. Porque tudo tem que dar lucro. Há trezentos anos, pelo menos, a ditadura da utilidade é unha e carne com o lucrocentrismo de toda essa nossa civilização. E o princípio da utilidade corrompe todos os setores da vida, nos fazendo crer que a própria vida tem que dar lucro. Vida é o dom dos deuses, para ser saboreada intensamente até que a Bomba de Nêutrons ou o vazamento da usina nuclear nos separe deste pedaço de carne pulsante, único bem de que temos certeza.

Além da utilidade

O amor. A amizade. O convívio. O júbilo do gol. A festa. A embriaguez. A poesia. A rebeldia. Os estados de graça. A possessão diabólica. A plenitude da carne. O orgasmo. Estas coisas não precisam de justificação nem de justificativas.

Todos sabemos que elas são a própria finalidade da vida. As únicas coisas grandes e boas, que pode nos dar esta passagem pela crosta deste terceiro planeta depois do Sol (alguém conhece coisa além- Cartas à redação). Fazemos as coisas úteis para ter acesso a estes dons absolutos e finais. A luta do trabalhador por melhores condições de vida é, no fundo, luta pelo acesso a estes bens, brilhando além dos horizontes estreitos do útil, do prático e do lucro.

Coisas inúteis (ou “in-úteis”) são a própria finalidade da vida.

Vivemos num mundo contra a vida. A verdadeira vida. Que é feita de júbilo, liberdade e fulgor animal.

Cem mil anos-luz além da utilidade, que a mística imigrante do trabalho cultiva em nós, flores perversas no jardim do diabo, nome que damos a todas as forças que nos afastam da nossa felicidade, enquanto eu ou enquanto tribo.

A poesia é u principio do prazer no uso da linguagem. E os poderes deste mundo não suportam o prazer. A sociedade industrial, centrada no trabalho servo-mecânico, dos USA à URSS, compra, por salário, o potencial erótico das pessoas em troca de performances produtivas, numericamente calculáveis.

A função da poesia é a função do prazer na vida humana.

Quem quer que a poesia sirva para alguma coisa não ama a poesia. Ama outra coisa. Afinal, a arte só tem alcance prático em suas manifestações inferiores, na diluição da informação original. Os que exigem conteúdos querem que a poesia produza um lucro ideológico.

O lucro da poesia, quando verdadeira, é o surgimento de novos objetos no mundo. Objetos que signifiquem a capacidade da gente de produzir mundos novos. Uma capacidade in-útil. Além da utilidade.

Existe uma política na poesia que não se confunde com a política que vai na cabeça dos políticos. Uma política mais complexa, mais rarefeita, uma luz política ultra-violeta ou infra-vermelha. Uma política profunda, que é crítica da própria política, enquanto modo limitado de ver a vida.

O indispensável in-útil

As pessoas sem imaginação estão sempre querendo que a arte sirva para alguma coisa. Servir. Prestar. O serviço militar. Dar lucro. Não enxergam que a arte (a poesia é arte) é a única chance que o homem tem de vivenciar a experiência de um mundo da liberdade, além da necessidade. As utopias, afinal de contas, são, sobretudo, obras de arte. E obras de arte são rebeldias.

A rebeldia é um bem absoluto. Sua manifestação na linguagem chamamos poesia, inestimável inutensílio.

As várias prosas do cotidiano e do(s) sistema(s) tentam domar a megera.

Mas ela sempre volta a incomodar.

Com o radical incômodo de urna coisa in-útil num mundo onde tudo tem que dar um lucro e ter um por quê.

Pra que por quê?

ENSAIOS e ANSEIOS CRIPTICOS, Ed. Pólo Editorial Paraná, Curitiba, PR, 1997, p. 77-79.

Vale a pena fazer um parenteses sobre este autor, que aqui em Curitiba , após sua morte (notem bem , após sua morte) , virou uma lenda urbana local e marco referencial dos literatos (e chatos) de plantão, que, vez por outra o citam aqui e ali a fim de demonstrar algum grau de erudição , quando de fato nunca leram nenhuma obra deste autor. Este fato é notório no meio acadêmico que padece deste senso comum, onde talvez em algum momento eu me ache incluso, que cita obras como Ulisses-James Joyce, Mediterrâneo – Fernand Braudel e o Catatau- Paulo Leminski , entre outras obras, que todo mundo cita e ninguém lê. Isto me lembra até aquele velho ditado sobre cabeça de bacalhau e enterro de anão , coisas de que todo mundo ouve falar e ninguém vê!

Mas, fechando o parenteses o que posso dizer sobre o autor, de quem possuo um parco conhecimento, é que depois de ser apresentado a este autor de forma tão interessante , estou lendo seu livro chamado “Ensaio e Anseios Crípticos” , por sinal muito interessante. De fato ele merece a notoriedade que alcançou, ainda que tardia.

Imagens do Isqueiro Azul

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