Encantamento ou Banalização do Mal

26 jun

Do blog de Carla Fabiana

Vez por outra quando vou a reuniões de professores , ouço alguma “alma bem intencionada”  que solta a seguinte questão:“O que eu faço para encantar o meu aluno?” (fato este que chega a  dar -me calafrios),e novamente ,esta semana vi esta mesma ideia de encantamento presente na Revista Carta Capital , no artigo a “A arte de encantar”,muito bom por sinal , bem como outras reportagens sobre questões relacionadas a educação, todas de muito bom tom , em geral bem escritas e com coisas muito importantes ao se referir a educação. Porém, uma coisa que me chama a atenção, e que se destaca em meio as outras ideia é o termo “encantamento”. O que me leva a fazer uma pequena consideração a respeito do uso das palavras , pois, se alguma coisa tem força é a palavra , embora, nem todos percebam uma relação direta ou concerta entre o uso desta e os problemas educacionais e sociais que o país e todos nós enfrentamos.
A fim de empreender um caminho para estabelecer a relação entre uma coisa e outra vou tentar explicar em linhas gerais a relação entre a palavra e as coisa e depois estabelecer a relação entre o termo “encantamento” ou “encantar” e os problemas educacionais  e o uso deste termo.
Em primeiro lugar basta dizer que as linguagem , a língua falada é algo anterior a palavra escrita , é praticada por todos e possui grande dinamismo partindo da perspectiva da sua capacidade de significar e resignificar o mundo e as coisas , bem como de se reinventar, produzindo novos termos e novos conhecimentos , assim como também são resultados de novos conhecimentos.
Tudo, inclusive o saber, era transmitido através desta , em um período muito remoto, muito anterior a escrita  escrita , com o tempo os conhecimentos , assim como as palavras, foram se avolumando tornado-se necessário criar um meio de codificá-los e armazená-los , com o objetivo de evitar a sua perca. Para tanto criaram-se ao redor do mundo diversos códigos de escrita , aos quais chamamos letras ou alfabeto , no nosso caso. Este por sua vez, resultado de um longo processo criativo e coletivo que envolveu , um sem número de mulheres e homem ao longo de seu processo histórico de construção.
Deste processo longo e complexo processo ,resultaram os diversos códigos de escrita adotados pela humanidade , do qual surgiram as palavras.
As palavras são elementos que servem para representar de uma forma codificada , todos os objetos , sentimentos, medos, anseios e todos as coisas tanto aquelas que fazem parte do nosso mundo material, quanto todas outras que estejam presente , naquilo que se faz representar no mundo espiritual , pessoal , material e subjetivo da humanidade e por isso servem para representar o complexo mundo que nos cerca e que estamos sempre a conhecer.
Deste modo as palavras não são simplesmente palavras , mas, antes símbolos, tais como a cruz, a espada e as placas que se acham afixadas em nossas ruas, e entradas, deste modo que, quando falamos em amor, dor, mesa, cadeira , horror, etc. , logo estes termos nos evocam imagens mentais que produzem uma grande conjunto de interpretações , pois, embora, tenhamos em mente o que seja cada uma destas coisas , as imagens e/ou interpretações referentes a cada uma delas variam, ainda , que ligeiramente devido ao fato de não sermos exatamente iguais , no que diz respeito a nossa educação , preferencias , gostos , entre outros aspectos , quanto a nossa subjetividade.
Contudo , mesmo sendo em diferentes em relação a nossas subjetividades, e portanto , também naquilo que esperamos de uma coisa , símbolo ou palavra, existe uma coisa que temos em comum que é a expectativa de bem ou de mal que estas nos evocam. Deste modo a palavra é um símbolo cioso de significados , alguns padronizados e objetivos, o que parece uma coisa contraditória , após a longa exposição que fiz aqui falando a respeito da subjetividade da palavra ,ao que dou a seguinte explicação. Mesmo a palavra e os símbolos aos quias ela representa terem uma noção tão subjetiva estas possuem uma necessária dimensão objetiva , que consiste em determinações que permitem evitar muitas confusões e discussões infinitas a “cerca de”, deste modo termos como a palavra “não” e as expectativa , assim como a dimensão subjetiva que a cercam , possuem um caráter de determinação e objetivação que na maioria das situações e e línguas exprime negação, ou seja , não é não e ponto.
Deste modo a palavra “encantar” ou “encantamento” é um daqueles termos e símbolos que possuem muito mais uma dimensão subjetiva do que objetiva, e confere ao objeto ou aquilo que pretende simbolizar , muito mais sentidos do que aquilo que por si só pretende representar. Deste modo o encantamento , tanto , no sentido do termo quanto aquilo que pretende significar, isto é , o seu caráter de coisa mágica , maravilhosa, sedutora , empoderada, entre outros aspectos, passa do termo ao objeto,  a que se atribui este adjetivo e ao qual este representa, bem como as expectativas advindas desta, ganham corpo na imagem da escola , como lugar mágico , ou seja , de encantamento.
Assim o que se espera da Escola, de um modo geral que esta seja o lugar de solução de todos os problemas sociais, onde se “aprende a enxergar”, se aprende a “caminhar” , a “ouvir”, a “falar” etc., o que acaba por se constituir em um caráter messiânico , ou seja, mágico ou em outras palavras, de encantamento que se espera da escola, bem como do professor, pois, se o ambiente educacional é um lugar de encantamento o portador da mágica , neste caso o professor deve possuir uma habilidade inata , o dom supremo, a inteligencia superior , a visão onisciente e onipresente, para entender, e a capacidade de dar respostas aos problemas sociais , morais e materiais de um mundo em desencanto , produzido pelos meios de comunicação, pelo mundo da política , pela realidade social que não oferece oportunidades , de um mundo que vende uma ideia de cidadania baseada  no consumo que cria não só a chamada privação relativa e absoluta de bens muitas vezes necessários a manutenção de uma vida digna e tantos outros elementos que tem contribuído não só para o desencantamento do mundo e da realidade , mas, também do próprio espaço escolar.
Deste modo, o termo “encantar” ou “encantamento” refletem uma condição bem como expectativas , que acabam por se frustrar no ambiente escolar , não só por que ele não possui capacidade de preencher todas os sentimentos e anseios, a que o símbolo evoca , mas, também por que os resultados muitas vezes produzidos neste espaço, que muitas gera um certo “que” de encantamento, acabam por se esgotar na realidade que não o valoriza.
O que se necessita para resolver os problemas em um universo  tão complicado quanto o da educação?
O encantamento , não da escola, mas, do mundo, que atende pelo nome mágico de cidadania, do qual o espaço escolar é apenas um de seus instrumentos e instituições capazes de produzi-la e não a instância privilegiada ao qual os Cesares Bórgia da vida , querem . tornar o espaço escolar “o bode expiatório e a panaceia de ultima hora.  Para ilustrar melhor o tema, basta uma peque na citação retirado do trabalho de Graduação em Psicologia de Guimarães e Carvalho intitulado “UMA ANÁLISE BEHAVIORISTA DA OBRA IL PRINCIPE DE NICCOLÒ MACHIAVELLI”, na qual se lê o seguinte:
Machiavelli, no capítulo VII de Il Príncipe, lembra a ocasião em que César Bórgia, filho de Alexandre VI, apoderou-se da Romanha, destronando seus antigos governantes corruptos que mais roubavam o povo do que propriamente governavam e colocou para governá-la, seu mordomo  Ramiro de Orco, dando-lhe total autonomia. Este, por seu turno, conseguiu eficientemente em pouco tempo apaziguar os conflitos ali existentes, conseguindo estabelecer um controle eficaz
conquistando muito respeito e uma boa reputação ante seus súditos. Após esta grande realização de seu mordomo, César Bórgia julgou não mais ser necessário haver tanta autoridade nesse governo, já que receava que a autoridade em excesso se tornasse odiosa. Resolveu então nomear um presidente notório e benquisto a fim de governar esta província. Entretanto, sabia que no passado, devido ações suas rigorosas, tinha-se criado entre a população um ódio contra si e a fim de melhorar sua imagem, conquistando novamente o povo, tentou mostrar que as rígidas crueldades infligidas contra o povo não tinham nele a causa, mas sim decorriam de ações duras e cruéis desse presidente. A fim de “vingar o povo das crueldades desse presidente” matou-o e exibiu-o em um espetáculo público na cidade de Caesena, cortando-o em dois (MACHIAVELLI, 1513/1994).
… servindo-se da oportunidade, fez colocarem-no uma manhã, na praça pública de Caesena, cortado em dois pedaços, com um pau e uma faca ensanguentada ao lado. A ferocidade desse espetáculo fez com que a população ficasse ao mesmo tempo satisfeita e pasmada (MACHIAVELLI, 1513/1994,p.43).

Que em ultima analise remete a imagem que vemos constantemente ,no diz respeito ao espaço escolar e ao profissional da educação, ou seja, o primeiro é visto como um lugar de violência e o segundo como um bruto tirano que a revelia de seu amo, violenta seus súditos . Assim a escola passa de lugar de magicamente de lugar de “encantamento” a lugar de tortura, o professor de detentor do “encanto” a torturador , o ordenador da tortura, vítima. E o espaço escolar a vítima e a réu  com apenas uma palavrinha. E deste modo finalmente a escola como espaço encantado, acaba por se afigurar , como o elemento que preenche o espaço do discurso vazio , da falta de ação social e política , cola-tudo social das revistas , noticiários , políticos , programas educacionais furados, e toda sorte de mazelas, da qual em virtude seu papel de ferramenta social e política ,  neste amontoado problemas e maravilhas chamado Brasil.

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