No Trajeto do Coletivo

29 jan

De repente estava eu ali! Sentado no ônibus , perdido em meio aos meus problemas  detinha o meu olhar, no livro que estava em minhas mãos.

Olhava as páginas uma a uma, buscava lelas com o máximo de atenção ,embora, por vezes, fosse traído pelo sono.

Em certo momento, com o olhar perdido dentro do coletivo, vi uma grande movimentação do povo de um lado para outro. Todos correram em direção ao lado esquerdo do lotação. Havia ocorrido um acidente de transito. Um acidente como tantos outros que ocorrem no dia a dia de toda grande cidade.

Pude, apenas, ver uma lona preta que cobria aquilo que parecia ser um corpo ensanguentado, estendido naquele chão de fim de tarde. Seria força do destino ou imprudência?

Não me movi do lugar , preferi ficar ali. Não por indiferença ,mas, por medo! Estas coisas de certo modo me impressionam e são um lembrete constante da fragilidade e da finitude de qualquer desejo humano.

Enfim… Procurei retornar minhas atenções para o livro em questão.

Foi quando do nada uma passageira que havia embarcado no ponto , quase em frente ao episódio fatídico, começou a comentar sobre o ocorrido.

Neste momento todas as minhas atenções, contra a minha vontade, voltaram-se discretamente para a conversa que se passava a minha frente. Pois, mesmo que quisesse evitar prestar a atenção ao fato, a conversa ocorria tão próxima a mim e com tal entusiamo, que qualquer resistência , naquele coletivo lotado , seria impossível.

Neste diálogo o que me impressionava não era o conteúdo da conversa em si, mas, o modo como esta se desenrolava.

A moça procurava contar o ocorrido com o máximo de detalhes possível, nenhum por menor parecia lhe escapar. E contava com certo prazer mórbido! Uma mistura de fascinação e de horror, parecia transparecer em sua face.

Contava a história saboreando cada palavra, como fossem mel a escorrer de seus lábios… Havia um certo ar de êxtase. Era algo quase erótico!

A medida em que ela narrava o acontecido, o cobrador , que era o seu ouvinte e interlocutor, arregalava os olhos, suas pupilas dilatavam-se e um ar de avides tomava conta dele.

Suas pernas chacoalhavam , tremiam e se contraiam de inquietude , parecia sorver cada palavra e cada detalhe , tal e qual um bom apreciador de música ouve uma sonata. Seu corpo por vezes vergava-se em direção a moça. Havia uma certa intimidade bucólica naquela relação. Eram como amantes! Dançando e bailando, tamanha a sincronia de seus corpos, atitudes e reações que se complementavam , no movimentar do veículo em direção ao meu local de trabalho.

Ao chegar emfim ao meu ponto, pensei comigo mesmo , como é insondável , maravilhosa e mórbida a natureza humana.

 

2 Respostas to “No Trajeto do Coletivo”

  1. Mirilaine janeiro 30, 2011 às 6:34 pm #

    Q livro vc estava lendo ? O cobrador estava é babando pela garota , tinha passado uma noite mal dormida e nem ouvia o que a criatura dizia! A natureza humana é muito estranha ficar “animada ” com um acidente, é o que eu digo cada vez mais gosto mais dos animais !

    • professorhb janeiro 30, 2011 às 7:10 pm #

      Já dizia o sábio Mogli o menino lobo. 🙂

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